Golpistas da seca lesam sertanejos prometendo serviços e seguros: Confira

Com mais de cinco anos de prejuízos acumulados com a pior seca do Ceará nos últimos 100 anos, os agricultores do interior do estado perderam quase toda a produção. A safra é utilizada apenas para subsistência e, sem alimentação, a maior parte do gado foi para o abate, interrompendo a produção do leite para venda. Além das perdas causadas pela escassez de água, a população enfrenta outro problema: golpes que prometem serviços, benefícios e desviam verbas que iriam para as pessoas prejudicadas pela seca.
G1 mostra, em uma série de reportagens, uma pequena amostra da realidade vivida na região - e as muitas saídas que encontra para conseguir sobreviver. Confira aqui as histórias, contadas em cada um dos nove estados do Nordeste brasileiro.
G1 visitou as cidades de Quixadá e Quixeramobim, no sertão cearense, e ouviu muitos relatos sobre estelionatários que se passam por agentes do governo prometendo dinheiro por meio do Garantia-Safra ou do Bolsa Família, além de denúncias sobre falta de entrega de água.

produção por causa da seca, Francisco de Assis levou meses para juntar R$ 100 para fazer um suposto seguro. A promessa era de ele receberia R$ 500 caso perdesse a safra em 2016. Assis foi vítima de um golpe e ficou sem o dinheiro. (Foto: André Teixeira/G1)
"Em 2016, tivemos o ano mais difícil em mais de 40 anos que eu cuido dessa fazenda. Um homem que dizia ser do governo pediu R$ 100 para fazer um seguro de safra, dizendo que a gente recebia R$ 500 em julho. Nós passamos muito tempo para juntar o dinheiro porque não tivemos colheita, e o gado que dava pra vender já estava todo vendido. Esse homem sumiu, e o dinheiro foi todo perdido", relata Francisco de Assis de Freitas, de 55 anos. 


Freitas é morador do distrito de Califórnia, na zona rural de Quixadá, no Sertão Central cearense. A vizinha dele, Maria Fernandes da Silva, relata que foi vítima de um golpe semelhante, de um suposto agente do Bolsa Família que prometia aumentar o benefício do programa para pessoas que sofriam com a estiagem.

"A história que ele contava é que ia aumentar o Bolsa Família, a gente ia receber R$ 80 a mais por mês, aí, pra isso, ele precisava fazer um cadastro da gente, e esse cadastro era R$ 30 por pessoa. Só aqui na Califórnia, dos que eu sei, ele enganou mais de 15 pessoas com esse cadastro."



produtor José Filho chegou a ter mais de 100 cabeças de gado há cinco anos, antes da pior seca do Ceará em 100 anos; hoje ele não tem nada. Sem condições de manter o gado, vendeu para o abate por menos da metade do preço. (Foto: André Teixeira/G1)
O titular da Delegacia de Defraudações e Falsificações, Jaime de Paula, explica que esse crime se configura como estelionato, com pena prevista de um a cinco anos de prisão. "Em alguns casos, dependendo da forma como ele aplica o golpe, ele pode se enquadrar também na falsidade ideológica, porque é comum eles se passarem por falsos agentes", explica o delegado.


A delegacia de Quixadá tem conhecimento dessas práticas ilegais, mas afirma que tem dificuldade em investigar porque, na maioria dos casos, não há registro da denúncia, e os golpes são aplicados em regiões distantes do centro urbano. "Eles são pessoas que vêm de outras cidades para aplicar os golpes nas áreas mais distantes. Quando a gente ouve o relato, depois de dias, eles [estelionatários] já estão longe. São os golpistas da seca", afirma.

Quando a água não chega


Antônia do Nascimento foi uma das vítimas da entrega de água da operação carro-pipa, que abastecia a casa dela com frequência menor do que a prometida pelo programa do Governo Federal. Ela reservava a água com a irmã para atividades de lavar as roupas (Foto: Andre Teixeira/G1)
Outra reclamação comum entre os sertanejos da região é a irregularidade no abastecimento de água pela operação carro-pipa. A comerciante Antônia do Nascimento foi informada pelo Exército – que coordena a Operação Carro-pipa – que os pipeiros abasteceriam a casa dela duas vezes por semana, o que não ocorria, segundo ela.
"Tinha semana que a água só vinha uma vez pra família toda e não tinha como a gente dar conta, aí eu lavava a roupa na casa da minha irmã, e ela vinha tomar banho na minha. Quando o caminhão vinha duas vezes por semana, na segunda vez, eles colocavam só metade do pipa e diziam que a outra metade era pra outra casa, senão não dava."
Em 26 de março, a polícia prendeu um homem que deveria levar água à zona rural de Jaguaribe, onde os moradores estão sem água de carro-pipa, segundo a Polícia Militar. "Uma verdadeira falta de honestidade com o pessoal que precisa da água do programa do governo", relata o policial Blaydson dos Santos, que divulgou a fraude junto com o major Mário Cunha Lima.
"Há vários tipos dessas fraude, num deles, o motorista tira a foto do caminhão quando ele está abastecendo – porque ele tem que provar o abastecimento com uma foto –, aí eles colocam outra placa falsa por cima e tiram outra foto, como se outro carro tivesse fazendo isso o abastecimento. Eles fazem isso três, quatro vezes com a mesma viagem", explica Blaydson.
Em fevereiro, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) prendeu dois homens que burlavam a operação em um caso semelhante ao de Jaguaribe. Conforme o Exército, cada caminhão-pipa tem um GPS que confirma o trajeto percorrido pelos veículos. Segundo a PRF, os aparelhos foram retirados dos caminhões e instalados em carros menores, que faziam o mesmo percurso do carro-pipa. Com a fraude, os suspeitos economizavam a gasolina e não realizavam a entrega de água nas casas.


Outra fraude, descoberta pela Polícia Civil, ocorreu em janeiro na cidade de Maracanaú. Nesse caso, os fraudadores, em vez de fazer os percursos e entregar a carga, despejavam a água em um um córrego. A água deveria ser levada para Canindé, a 120 quilômetros de Fortaleza, mas era despejada a poucos quilômetros da capital cearense. O grupo, que recebia R$ 500 por cada carga entregue, responde por estelionato e desperdício de bem público. O G1 aguarda posicionamento do Exército, que coordenada a operação carro-pipa.

Maiores açudes secos

Barragem de Quixeramobim segue seca, e a cidade depende da água do açude Pedras Brancas, que também manda água para a cidade de Quixadá. Sem água há um ano, a cidade de Quixeramobim depende completamente de uma adutora que leva água ao município. (Foto: André Teixeira/G1)
As chuvas no Ceará nos meses de fevereiro e março foram acima da média histórica, o suficiente para deixar a paisagem sertaneja esverdeada. Os pequenos reservatórios também encheram ou receberam um bom volume de água. A safra, no entanto, não está garantida, e os maiores reservatórios do estado seguem com menos de 10% da capacidade. O fenômeno é conhecido entre os sertanejos como "seca verde".

Mesmo com boas chuvas, temos grandes açudes, como o Fogareiro, com 1% da capacidade. Isso é um reflexo de um longo período de estiagem"
Fernando Pimentel, técnico da Cogerh
Os reservatórios que abastecem Quixeramobim, no Sertão Central Cearense, estão completamente secos ou com menos de 1% da capacidade. Com isso, a cidade passou a receber água do açude Pedras Brancas, o que mesmo garante água para a cidade de Quixadá. 


De acordo com o assessor técnico da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos em Quixeramobim, Luís Fernando Pimentel, na atual situação, o Pedras Brancas tem reserva até o final de 2018. "Mesmo com boas chuvas, temos grandes açudes, como o Fogareiro, com 1% da capacidade. Isso é um reflexo de um longo período de estiagem. No ano passado, ele chegou a ficar completamente seco", afirma Fernando.



Chuvas de fevereiro e março no Ceará foram suficientes para encher pequenos reservatórios, o que é bastante comemorado pelos agricultores do sertão cearense. No entanto, 27 cidades têm racionamento. (Foto: André Teixeira/G1)
Conforme a Cogerh, atualmente, nenhuma cidade do Ceará vive o cenário de colapso, mas em 27 delas há racionamento para evitar a total falta de água: Apuiarés, Araripe, Aratuba, Campos Sales, Catarina, Catunda, Crateús, Fortim, Granjeiro, Hidrolândia, Ibicuitinga, Iracema, Irauçuba, Itapiúna, Mombaça, Mulungu, Nova Olinda, Pacoti, Palmácia, Pentecoste, Pereiro, Piquet Carneiro, Potengi, Potiretama, Salitre, São Luiz do Curu e Tamboril.


"A partir do monitoramento da Cogerh, nós classificamos os municípios com nível de criticidade. Dependendo do nível, fazemos ações emergenciais na cidade, como montagem de adutoras rápidas, o que tem salvado algumas cidades, como Quixeramobim. A adutora que abastece Quixeramobim há um ano tem garantido o abastecimento da cidade, uma vez que os reservatórios que mandam água para cidade, como o Fogareiro, estão com nível crítico de capacidade", explica Fernando Pimentel.





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